sábado, 25 de setembro de 2010

Transparências da alma


As palavras insinuaram-se, caminharam até mim - de forma suave e transparente. Entraram na minha alma e aí estão, transformadas em livro, transformadas em poesia para que as transparências que transportam entrem na alma de qualquer um!!!
Aceita o convite, vem ao encontro daquela que pode também ser a forma mais bela de literatura: a poesia!


quarta-feira, 11 de agosto de 2010


Pranto

Pode o céu ser a distância
Que me diz todos os segredos
E me revela em voz de ânsia
Os teus sonhos, limites ou medos

E no céu que inventarmos
Seja a hora da libertação
Seremos nós
Se no tempo pararmos
Eco da nossa ilusão

E é no vento que vem do céu
Que encontramos as melodias
Libertaremos asas e sonhos
Beberemos todas as nossas fantasias

Será no céu que a distância encurtaremos
E voz de todo um tempo seremos
Em uníssono
Em sofreguidão
Ouviremos sangue liberto
Grito e mar desperto
Dentro do coração

Para quê olhar o céu
Para quê voar sem asas
Somos tronco colado à terra
Arma vermelha usada em guerra
Paredes despidas das nossas casas

Para quê esperar o azul
Que de todas as cores vem despido
Há sempre um destino
Choro infeliz
Órfão menino
Que no mundo anda perdido

Para quê beber copos de ilusão
E esperar pétalas de sinfonia
Neste tempo mora a solidão
Em qualquer céu calou-se aquela canção
Intitulada alegria

Para quê gritar e ouvir
O silêncio impera
Calou-se o vento
Vestiu-se de negro a Primavera
No céu escreve-se a palavra lamento

Para quê inventar tempo
Reclamar idade
E olhar as mãos vestidas de dor
Mora aqui a saudade
Sufoca-me a sede de liberdade
Levaram-me o rio do amor.

domingo, 25 de julho de 2010

Tumulto em mim

Vim do tempo dos sorrisos
Da infância recuperada
Os meus olhos já não são precisos
Tenho na memória a vida guardada

Tenho água escorrendo entre os dedos
E os dedos já não são meus
Guardei longe todos os meus segredos
Fui ave em sonhos
Subi aos céus

Sou menino indefeso sem orientação
Criança inquieta de alma despida
Falo com as vozes do coração
São os sonhos a minha salvação
De noite revejo as imagens da vida

A lua cheia de vagas sonhadoras
Traz-me à memória histórias contadas
Em tempos idos
Em manhãs passadas
São momentos apenas vividos
São agora transparências resgatadas

Volto quando não quero
Ao país da ilusão
Vou com a chuva
Sou primavera
Campo verdejante nas noites de verão

Regresso em sonhos
Ao tempo da felicidade inteira
Das palavras obscuras
Ou simplesmente escondidas
Beijo os silêncios das minhas ternuras
E peço à minha voz
Que me devolva as cores outrora desaparecidas

Sou máquina parada
Sou ser pensante ou pequeno deus dormindo
Nas asas da memória
Revejo as margens da alegria adiada
E das sombras que dançam
Corro fugindo

Não sei do tempo
Não sei o que fiz nas manhãs incertas
Ausentei-me de tudo
Sou choro incerto
Abraço mudo
Transformei as lágrimas em ondas descobertas

Quero voltar a ser navio
Ou simples gaivota
Num mar sempre azul ou das cores que não entendo
Mas que quero sempre ver
Serei de novo livre
Se as memórias dormirem
Ou se o tempo pretérito desaparecer




Corpo que invento

Deixo que os nossos tempos se toquem
Aqui de madrugada meu amor
Deixo ainda que os nossos olhos permaneçam assim
Fechados para o mundo
Abertos para o nosso interior

Deixo que os nossos risos se confundam
E que partilhem o sabor húmido de um mar revolto
De um jeito luminoso
Nas nossas peles há o sal da praia onde não fomos
E o suave brilho deste nosso jeito
Carinhoso

Deixo que o tempo se esqueça de avançar
Mesmo sabendo que não o paramos
Mesmo sabendo que a terra se agita
Enlacemos de novo os corpos
Para que a nossa vontade gema
Quando em gemidos grita

Deixo que os nossos cabelos se entrelacem
E façam fios da cor inventada em cada movimento
São fios dourados
De amor desenhados
De poesia pura que para ti invento

Deixo que as nossas bocas segredem
Tudo o que só nós conseguimos ouvir
São segredos escondidos
Feitos de sonhos percorridos
Nas margens do rio para onde queremos sempre fugir


Deixo que a brancura do tempo cegue a escuridão do nosso passado
Fiquemos assim
Inquietos
Loucos mas felizes
De tudo capazes mesmo sem o saber
E sempre que a vontade de ausência venha
Estaremos prontos para o que a vida quiser

Deixo que os meus dedos toquem suaves nos lábios que beijo
E eles trazem para o meu corpo
A vontade que tens
De em mim viver

Deixo que acorde de noite sozinho
Nesta cama larga onde sempre me movimento
Deixo que as paredes tenham sombras
E que o meu corpo tenha o cheiro
Do teu corpo
Que agora invento

terça-feira, 20 de julho de 2010

Sono

Tenho medo do meu sono
E do que nele possa encontrar
Receio as trevas
Os meus segredos
Cama nua onde deito os meus medos
Solidão descoberta do meu pensar

Tenho medo do que não sinto
Quando a noite me envolve e me circunda
Não me encontro
Não me desvendo
Sou mente apagada
Em noite ausente
Em escuridão profunda

Tenho medo do que não abarco
Se não envolvo o que me cerca
Não fecho os olhos aos meus sonhos
E as fantasias chegam sozinhas
Para que à noite na cama me perca

Tenho medo do que não vejo
Porque as sombras não me deixam antever
Sou corpo deitado
Mente sempre presa
Aos sonhos negros que não quero ter

Tenho medo do que não atinjo
Porque à noite não tenho luz
E se na verdade dos dias eu finjo
É o frio das noites que me seduz

Tendo medo não impeço
Que a noite me leve aos tempos apagados
Às vozes que não consigo resistir
Vem noite, leva-me nos teus braços
Todos os meus segredos serão desvendados
Porque és tu que me sabes ouvir

Dir-te-ei o caminho que vejo em sonhos
Verás as estrelas e o seu brilho penetrante e agudo
Falarei com as vozes que as trevas me trouxerem
Ficarei cego com a visão do destino
Que nada me dirá por ser mudo

Ficarei encantado e perderei o medo
De sonhar de noite na cama vazia
Serei eu no meu desvendar
E de manhã
No tempo de acordar
Libertarei o medo que no meu sono havia