segunda-feira, 10 de maio de 2010

QUERO

Lentamente
Vem a tua voz ao meu encontro
Ouço sons sibilantes, sonoros, suaves
Vêm pé ante pé
Com carinho
Pelas idades do caminho
Trazem-me paz, estas brancas sonoridades
E com elas vem o ruído adocicado do amor
Deixam-me sem fôlego, mas cheio de cor
Sou então mais do que eu
Voo
Lanço-me na aventura da viagem que contigo quero fazer
Há um céu à nossa espera
Há um tempo que desespera
Se não nos vê a aparecer
Grito
Neste silêncio rebelde, sem vontade de ficar
Alcanço com a tua voz a felicidade e o bem-estar
Não, não sei dizer de que tamanho sou eu
Não sei o motivo por que esta alegria apareceu
Sei apenas que sou capaz
De dizer-te, mesmo baixinho,
Mesmo assim, devagarinho
Que a felicidade mora ao pé de mim.
Ficou no meu terraço
Durante a noite enrola-me num revoltado abraço
E de dia diz-me que hás-de voltar
Não, não desespero
Não sei ainda o que quero
Mas sei que na cor da tua voz
Sei ser mais do que somos nós
Não, não me cortes a ambição
Não me apetece a solidão
Quero ondas no meu sentir
Quero a alma de novo a sorrir
Quero beijar-te, meu coração.
Digo outra vez todas as ruas por onde andei
Bebo outra vez todos os verbos que conjuguei
Quando estava sem ti, sozinho
E agora que a tua voz se aproxima
Agora que a vida comigo rima
Danço sem fôlego, neste caminho
Feito de pétalas e de perfume de laranjeira
De um calor de qualquer lareira
De uma amêndoa que adoça a boca
Ou de um livro entreaberto
Deixa-me ler as palavras que ainda não sabes dizer
Deixa-me tocar-te com os dedos
E o teu corpo percorrer
Quero ir para lá da linha de perigo
Fazer da minha alma um castigo
Quero tudo,
Mesmo louco, ou com juízo,
Quero a vida de que preciso
Quero apenas isto: viver.
O CAMINHO

Qualquer caminho por onde passes
Terá a minha mão a orientar-te
Será vento no teu rosto
Serão bosques no teu sentir
Será perfume ao sol-posto
Ou ondas de um mar a fugir
Qualquer caminho que percorras
Terá sempre luz a ajudar-te
Será um gato aninhado ao sol
Lambendo o corpo e o vazio
Será flor, água ou tronco
Vela à solta de um navio
Qualquer caminho que desbraves
Terá sons que vão apoiar-te
Será riso, choro ou ternura
Será o que a vida ainda te quer oferecer
Terá mel tomado em jejum
Nas taças do amanhecer
Qualquer caminho que prossigas
Terá os meus olhos como horizonte
Será dia de relva vestido
Lezíria, campo ou monte
Terá pássaros voando em círculo
E água fresca da fonte
Qualquer caminho que pises
A qualquer hora, a qualquer momento
Terá escrito na sombra do vento
O meu nome, com todas as letras arrumadas
E se o caminho não encontrares
Não desanimes
Não venhas ao encontro do que perdeste
Avança, mesmo sem saber
Terás o que procuras: o teu tempo, o teu viver.

domingo, 9 de maio de 2010

DANÇA DO PASSADO

Tenho sono
Fecham-se-me as pálpebras
Nesta hora de ir dormir já não consigo pensar
Mas resisto
Teimo comigo
Corpo, não te vás deitar
Mas os olhos ficam fechados
E mesmo com os dedos a escrever
Adormeço, já não consigo
Sinto o corpo a adormecer

Mas eis que de repente
Na escuridão do meu olhar
Vejo os fantasmas do passado
Vieram comigo dançar

Trazem-me as cores da minha infância
E o verde da minha saudade
Há neste regresso do tempo
Tempo sem nenhuma maldade
Sinto os cheiros que eram o meu mundo
E a minha letra, ainda perfeita, tão pequena
Viajo no tempo, mas não me afundo
Reencontro a vida serena
Vou contente para a escola
E levo bata branca vestida
Olho a bata e vejo as cores
Com que pinto a minha vida
Beijo a inocência desse viver
Abraço o pescoço da minha mãe
Afago-lhe os cabelos
Beijo-lhe os olhos
Invejo a paciência que ela tem

Cruzo-me com o meu pai
E no azul do seu olhar vejo-me ao espelho, sorrindo
É um azul que deste tempo não sai
Mas esse tempo era lindo

Há ainda uma casa pequena, umas árvores e a vida em flor
Não conhecia a palavra guerra
Conhecia o cheiro do chão, sempre a brincar
Mesmo em silêncio, tristonho

Sou agora eu, outra vez
Mas que importa, consigo sempre voltar
Mesmo que seja num simples sonho

ANTEVISÃO

Há nos braços do meu tempo
Fios de seda, flores de mágoas
Há nos risos da vida
A sede feita de muitas águas
Não há tempo para a seda
Se reinventar em tecido
Só há tempo para as mágoas
Fazerem este tempo sentido
Há nos olhos do meu viver
Cores indecisas e sem fulgor
Há nas pernas da minha alma
Algum cansaço, alguma dor
Não há horizonte para os olhos
Nem telas por preencher
As pernas não querem andar
A dor insiste em permanecer
Há nas costas da minha alma
Um rio feito de saudade
Há no coração do meu sofrimento
O cheiro de não ter vontade
Não há alma que aguente
O sofrimento que este coração tem
Nem há saudade que se invente
Quando a alma cheiro não tem
Há na boca do meu pensamento
As palavras que não sabem sorrir
Há nos lábios que eu invento
Um sorriso por descobrir
Não há pensamento que esmoreça
Quando a boca quer falar
Nem sorriso que desapareça
Quando os lábios se querem fechar
Há nos cabelos da minha emoção
Tudo o que os mares querem oferecer
Há no rosto da criação
Algum tempo para eu viver
Não há emoção que eu não conheça
Nem mares que eu não queira percorrer
Há apenas mundo frio, tempo apagado
Quando a minha poesia morrer

sábado, 8 de maio de 2010


EU E TU

Vem
Vamos fazer um hino à esperança
Fazemos assim
Trazes os sons da música
Eu levo as asas e os movimentos da dança
E depois
Se alguma beleza faltar
Não tenhamos receios
Afogarei a minha voz
E o meu coração
Na brancura dos teus seios
Vem,
Vamos cantar o sonho
Somos capazes de o fazer
Basta contornar o tempo
Iludir a vida ou a razão
Veremos que o sonho vem
Não será mais ilusão
Vem,
Vamos escrever palavras belas
Soltas e com sentido
Pegamos nos sons
Desenhamos as letras
E no mar escrevemos
Apenas no mar
Todos os momentos que temos vivido
Vem,
Vamos voltar ao tempo
Em que a vida era feita a cantar
E a semear flores nas nossas mãos
Ou no nosso caminho
Se o tempo faltar
E se as flores tiverem morrido
Não te lamentes
É sinal que o tempo já está preenchido
Vem
Vamos desenhar as nuvens
Ou o voo das aves no céu despido
Que está à frente da nossa visão
Trazes as cores
Pintarei as asas
E o céu por cima das casas
Terá a cor da nossa paixão
Vem
Vamos ficar assim
Sem nada fazer
Sem nada exigir
Porque somos felizes sem qualquer condição
Agora aqui
Mas se te fores embora
Não olhes para trás
Para não veres as lágrimas
Que choro por ti.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SONHO

Comi cerejas azuis
No país da ilusão
Quase fiz amor com o vento
Mas resisti à tentação
Deixei-me levar pelas ondas
Que nestas janelas batiam
E o algodão em que me sento
Cheira a doce de melancia
Deitei-me nas penas que voam
Encharquei-me em pedras tão puras
Que sinto que as horas magoam
Nas dores cortantes, porque são duras
Levantei-me e andei despido
À porta do tempo parado
Bebi do vinho que andava perdido
Sem se ter embriagado
Olhei para dentro das árvores
E vi que estavam a falar
Dei conta da conversa que tinham
Mas recusei-me a participar
Enrolei os dedos em linho
Senti um fogo que me apagava
Aconcheguei-me na cama, sozinho
Abri os olhos… sonhava.